sábado, 4 de dezembro de 2010

Celebrar a Vida



     Nunca me conformo do porque de mais pessoas irem ao velório do que no aniversário de alguém. O aniversário das pessoas, expressão de vida, muitas vezes é deixado de lado. Não nos damos o trabalho de nos deslocarmos, uma vez ao ano, à casa dos aniversariantes (amigos, familiares, colegas de trabalho, etc.) para desejar-lhes um singelo: "Feliz Aniversário". Mas se a ocasião é outra, se a pessoa falece, tudo pára, mesmo fazendo anos que não a víamos, é hora de nos revestirmos de luto e irmos ao velório. Não estou condenando aqui quem vai à velórios, pelo contrário, acho um ato nobre, principalmente para aqueles que ficaram e sentem mais de perto a dor pela perda da pessoa amada. Já a pessoa que se foi, não sei se ela faz muita questão, afinal de contas, ela já não está mais aqui. Do ponto de vista dela, é que quero refletir um pouco.

     Tomando como ponto de partida se eu mesmo fosse o falecido e pudesse somente notar as pessoas que foram ao meu velório, iria pensar: "Poxa vida, tantas vezes liguei para 'fulano' o convidando para o meu aniversário, ele foi uma vez e depois nunca mais apareceu. Olha ele aí agora, quando não poderei ao menos cumprimentá-lo." "Nossa, 'ciclana' nunca me dirigiu uma palavra no serviço, e agora está aqui, quando nem que se ela quisesse, eu poderia ouví-la". Eu, ficaria muito mais feliz se em todos os meus aniversários, aquelas pessoas, agora presentes no meu velório, houvessem chegado para mim e terem dito: "Meus parabéns por mais um ano de tua vida, que alegria poder celebrar contigo este momento". Daí sim, o motivo agora da presença no velório não seria somente por pretexto social ou para prestar condolências à família, mas também e principalmente de se despedir, simbolicamente, daquele que partiu.

     Do ponto de vista de quem fica, o menosprezo para com a vida (aniversário) gera uma valorização da morte (velório), acompanhada talvez de um certo arrependimento, como se fosse um acerto de contas: "Olha, eu não celebrava contigo a tua vida, mas estou aqui agora para me despedir." Isto não é uma inversão de valores? Não deveríamos aproveitar enquanto as pessoas vivem para estarmos com elas? Temos de esperar que alguém morra para somente então a encontrarmos já inerte, sem vida?

      A pressa e a dinâmica do cotidiano são fatores que nos desanimam de celebrar a vida, tanto que somente quando algo estrondoso como a morte acontece, que nós a paramos para dar atenção. É  a perda da sensibilidade e da afetividade humana, que se esvai com as desculpas do dia a dia.

     Temos que repensar as nossas prioridades (vida ou morte?). Eu penso que deveríamos comemorar TODOS OS DIAS, ou ao menos agradecer pela vida das pessoas. Não somente esperar datas festivas para ir ao encontro, não é porque é dia das mães que você deve ir ver a sua mãe, mas pelo simples fato de que ela É A SUA MÃE e amanhã talvez ela já não seja, em vida. Se nos dermos conta de que a vida é frágil e se acaba facilmente, não deveríamos nem esperar um ano todo, mas celebrar a cada instante e manifestar isso. Não adianta guardar tudo aquilo que sempre se sentiu por alguém e não dizer à pessoa. Não adianta chegar no velório e dizer aos outros: "Eu gostava tanto dele...; Ela me fazia sentir tão bem...; Era uma pessoa muito especial...; Sempre quis ter uma amizade com ele..." sendo que deveríamos ter dito isso à pessoa em vida. Deveríamos ter a coragem de nos abrirmos e não termos vergonha de dizer: "GOSTO muito de você!; Você me FAZ sentir muito bem!; Você É uma pessoa muito especial"; Eu QUERO ser seu amigo!" Dizer no presente, não num passado sem volta. Daí talvez brote aquele arrependimento de que eu falava. O arrependimento de não ter feito, de não ter dito, e agora... já é tarde demais, pois "há três coisas na vida que nunca voltam atrás: a flecha lançada, a palavra pronunciada e a oportunidade perdida." (Provérbio chinês)

     Temos que valorizar sempre e em primeiro lugar o milagre da vida. Estar junto, dizer, amar, VIVER, enquanto é tempo. "Não espere por uma crise para descobrir o que é importante em sua vida." (Platão)

"A vida é a arte do encontro, embora haja tanto desencontro pela vida."(Vinícius de Moraes)


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