Me intriga o motivo que leva às pessoas a pensarem que são melhores que as outras. Dinheiro, popularidade/fama, status, cargos, idade, conhecimento/sabedoria/inteligência... são coisas que tendem a nos proporcionar um certo ar de superioridade que, na verdade, não existe. Acompanhado à essa falsa superioridade, está (em minha opinião) o pior sentimento humano: a arrogância. Sentimento este que caracteriza a falta da mais nobre virtude do ser humano: a humildade. Sobre esses extremos que eu gostaria de refletir um pouco.
Seguindo a linha de motivos que apresentei acima, vamos começar pelo dinheiro. É triste ver como as pessoas menosprezam as outras por causa de dinheiro. Como há preconceitos, estereótipos, desprezo e até aversão às pessoas de menor poder aquisitivo. E isto não se aplica somente da parte dos ricos para com a classe média e pobre, mas talvez seja encontrado mais da parte da classe média para com os pobres e entre os próprios pobres. Uma triste realidade, encontrada infelizmente em diversos âmbitos da nossa sociedade.
A humanidade está perdendo a dimensão essencial humana para a perspectiva efêmera do capitalismo, onde só se é e só se vale alguma coisa quem tem, quem possui (vide post: "A Sociedade do Ter"). "Os homens perdem a saúde para juntar dinheiro, depois perdem o dinheiro para recuperar a saúde. E por pensarem ansiosamente no futuro esquecem do presente de forma que acabam por não viver nem no presente nem no futuro. E vivem como se nunca fossem morrer... e morrem como se nunca tivessem vivido."(Dalai Lama).
Outro aspecto que insiste em conferir, de maneira ilusória, uma superioridade, é a fama e a popularidade. Como os famosos se colocam e também são colocados, por si, pela mídia e pelos próprios fãs, em "altares" distantes da nossa realidade, intangíveis, inatingíveis, apoteóticos. Fico chateado quando vejo algum artista agindo com arrogância, se armando e usando de sua fama para se fazer prevalecer.
Fama não é fácil de se alcançar, mas uma certa popularidade sim. Nas escolas, nas empresas, é fácil encontrar esse tipo de gente. Seja pela beleza, força física, humor debochado ou por alguma atribuição de valor social, os populares passam ostentando aquilo que na verdade não passa de uma couraça para esconder seus defeitos.
O status, como uma posição de poder na sociedade, seja pela profissão ou por um outro tipo de fama, também pode proporcionar esta falsa superioridade. Médicos, políticos, militares, empresários, profissionais da área do Direito, como juízes, delegados e advgados, tendem, por seu status social, se acharem melhores que os outros.
Os cargos, como chefes, diretores, coordenadores, fazem pensar que são diferentes, que são melhores. Chefes que tratam seus funcionários sem a menor dignidade, menosprezando-os por de trás de suas mesas imponentes e seus ternos bem cortados, que nada mais cobrem do que a mesma espécie que se encontra à sua frente, temerosa e obediente pelo explorado fato da necessidade do emprego. Como escreve Augusto Cury, "O maior líder é aquele que reconhece sua pequenez, extrai força de sua humildade e experiência da sua fragilidade." E também Benjamin Franklin: "Ser humilde com os superiores é obrigação, com os colegas é cortesia, com os inferiores é nobreza."
A idade, que se diz superior devido à experiência de vida. Claro que tem valor e se deve respeito, mas esta mesma experiência adquirida com os anos não deve ser usada como fator de superioridade. É a velha história: "Eu sou mais velho que você, eu conheço isso a mais tempo que você, por isso o que eu penso está certo." Isto não é motivo.
E o que mais me dói é ver as pessoas que usam a sabedoria como instrumento de superioridade. Se julgam melhores porque sabem mais, são mais inteligentes, possuem mais conhecimento. O caráter oblativo da sabedoria se perde e se torna um egoísmo intelectual, um saber vaidoso. O saber deixa de ser sábio quando não é humilde. Tolo o que se julga inteligente mas guarda para si e para sua arrogância o seu conhecimento. "A única sabedoria que uma pessoa pode esperar adquirir é a sabedoria da humildade.", nos diz Thomas Eliot. "O topo da inteligência é alcançar a humildade.", nos diz os antigos textos judaicos. Nessa nossa aspiração pelo saber, conscientes de que "nada sabemos" (referência à Sócrates), encontramos "pessoas que desejam saber só por saber, e isso é curiosidade; outras, para alcançarem fama, e isso é vaidade; outras para enriquecerem com a sua ciência, e isso é um negócio torpe; outras, para serem edificadas, e isso é prudência; outras, para edificarem os outros, e isso é caridade" (Santo Agostinho).
Tomemos consciência da nossa igualdade humana, igualdade na pequenez. Essencialmente somos iguais, abrigamos a mesma centelha divina que nos une à uma mesma "raça eleita". Não somos melhores que ninguém, e se somos contemplados com algumas qualidades a mais, que estas se coloquem à serviço dos que não a possuem. A humildade, "...única base sólida de todas as virtudes." (Confúcio), "exprime uma das raras certezas de que estou certo: a de que ninguém é superior a ninguém. (Paulo Freire).
Um conselho: "Seja humilde, pois, até o sol com toda sua grandeza se põe ao fim do dia e permite a lua brilhar." (Bob Marley).
Afinal de contas, não passamos de pó, e à ele retornaremos.
(Gn 3,19)






